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Clube do Livro – Angélica, a identidade, a transformação e a arte (texto de Nancy Fajardo – enviado por e-mail)

Nancy participou do Clube do livro e fez anotações sobre as impressões e resolveu compartilhar o texto no Blog da Oficina Literária Boca de Leão.

 

Angélica, a identidade, a transformação e a arte.

No livro Angélica, Ligia Bojunga aborda a temática da identidade e como essa identidade pode ser transformada (às vezes em contra de si mesmo) pela relação com os outros, este assunto é trabalhado através dos conflitos que alguns personagens enfrentam. Dentro dos vários animais e pessoas que estão envolvidos na historia, tem dois nos que o assunto da identidade é especialmente importante, eles são o porco Porto e a cegonha Angélica.

O porco Porto entra na vida por sua própria vontade e não tem pais ou familiares, entra no mundo sem um contexto de relações sociais que o limitem ou o determinem. Ele é feliz só de existir, se relaciona com todos os seres ao seu redor como seus pares, embora sejam diferentes dele, está alegre com ser como ele é. No livro se percebe essa alegria de viver do porco no encontro com o lago, nele, o porco agradece a vida e se enxerga como um ser completo, satisfeito com a vida e com o quem ele é.

Tudo continua dessa forma mesmo depois do porco encontrar as pessoas no porto, porem, alguém o avisou que não podia continuar vivendo sem saber escrever e ler. A entrada na escola marca uma mudança enorme na vida do porco, ele conhece outros animais que ele acha que são seus colegas, mas eles não o aceitam, e pela primeira vez o porco se enxerga no olhar dos outros e percebe que eles dão uma conotação negativa ao seu nome e a sua identidade. Sua identidade de porco é transformada pelas crenças, preconceitos e sistemas de valores que os outros trazem na interação com ele, a sua identidade (o fato de ser porco), torna-se incompleta, insatisfatória e insuficiente para sua felicidade.

A mudança que o porco sofre depois de ser inserido na escola, remete à transformação que as crianças vivenciam quando vão para primeira serie, lá eles tem contato com a escola como instituição que impõe os padrões do processo de educação, nesse momento as crianças vão de uma educação lúdica (em casa ou na creche) ao processo de educação formalizado. A importância do fato de se alfabetizar destaca a posição da escola como o lugar donde a criança pode se apropriar do saber cultural e social e ao mesmo tempo pode aprender a replicar ou questionar as práticas sociais.

Para o porco aquele olhar do outro, a interação com ele mudou de maneira radical a sua identidade e o jeito de se relacionar com si mesmo, ao ponto de ter que mudar de nome (o que ele é como animal) e de aparência para poder continuar com sua vida e ganhar a aceitação dos outros, o porco se rebela contra a sua essência e não é mais um porco e sim um Porto.

Porto continua tendo conflito com se mesmo durante quase toda a historia, mas de novo a sua identidade é modificada pela interação com os outros, desta vez é a Angélica a que começa a dar outros sentidos á identidade de porco, falando que ela mesma tem espírito de porco e que isso fez ela se diferençar dos seus irmãos, isso a fez especial. O espírito de porco faz também que Porto e Angélica tenham algo em comum, algo que os une e que faz parte do relacionamento no que os dois acabam se envolvendo.

O Porto finalmente pode volver a ser porco e ser fiel a sua própria identidade pela influência de todos os outros personagens e a aceitação deles, quando o Porto tira o disfarce todos ficam surpreendidos, mas não dão importância ao fato do Porto ser um porco e sim aos laços de amizade que eles construíram fazendo do fato do Porto ser um porco um aspecto que não muda o que o Porto é nem o relacionamento entre eles.

Adicionalmente, neste livro igual ao livro os colegas o Porto pode volver a ser porco e ser fiel a sua própria identidade a traves da arte, a traves da obra de teatro que ele e os outros personagens inventam para ganhar dinheiro. O assunto das artes é tratado no livro os colegas e no de Angélica como um importante meio para a transformação de si mesmo.

Nos colegas, os animais conseguem deixar de mendigar ou roubar para sobreviver através do seu trabalho no circo, pela arte os bichos passam de serem sujeitos marginais e se inserem no tecido social tendo proteção, trabalho e comida. Do outro lado, no livro Angélica, é através do teatro que o porco conseguiu se aceitar completamente, ter uma rede de amigos e encontrar um lugar na sociedade.

Alem da historia do porco, a temática da identidade é exposta no livro através do próprio personagem de Angélica, com diferença do Porto, ela nasce rodeada de sua família, uma rede social que define o seu papel no mundo. Eles definem a Angélica como uma cegonha que traz os bebês ao mundo. Angélica acredita em todos os significados e o papel social dela e de sua família até perceber que esse rol é mentira, mas essa mentira lhes traz muitas vantagens e privilégios no seu entorno social e a sua família não quer dizer a verdade por causa disso.

No momento em que Angélica entende a mentira, quer que a sua família mude e fale a verdade, mas não consegui convencê-los, pois para eles as vantagens da mentira justificam o fato de mentir, os pressupostos morais da família da Angélica aprovam a mentira como algo necessário dentro do seu contexto social.  Angélica se rebela contra esses preceitos morais e não está disposta a sacrificar os seus princípios éticos dentro dos quais a mentira e o engano ás crianças não pode ser justificado, em conseqüência, ela entra em conflito consigo mesma e tenta lidar com esse conflito de vários jeitos.

Num primeiro momento, Angélica tenta se afastar da sua família, ela planeja uma viagem e tenta obter a permissão dos seus pais para ir embora, mas seus pais não a deixam, então o conflito entre a sua ética e a moral proposta pelo seu entorno social fica tão grande que ela decide desnascer, a impossibilidade de ter um lugar acorde com a sua identidade e seus princípios dentro da ordem social a faz desistir do fato de existir ou ter existido.

Neste ponto da historia é enfatizado como pode ser transformadora da identidade a pressão social e a interação com os outros, especialmente em duas circunstancias: primeiro quando não tem lugar para a diferença, até o ponto de se questionar o propósito ou o valor da própria existência se não se pode expressar a própria identidade (a negação de si mesmo, o desnascimento). Segundo, quando o poder transformador do âmbito social cria possibilidades para o desenvolvimento da identidade.

Na historia, a ação dos outros é a que impede que Angélica consiga desnascer, sua família percebe quanta infelicidade causou nela pela exclusão da sua forma de pensar e impedem que ela volte para o ovo, eles a deixam ir embora e dão um presente que acham que pode lhe ajudar no seu novo caminho.  A família de Angélica da um lugar para a identidade dela dentro do tecido social que lhe possibilita criar uma realidade mais acorde com os seus princípios éticos.

A viagem da Angélica e a busca de outras realidades fazem com que ela encontre outros personagens que enxergam de outro jeito o seu papel como cegonha, um deles é o porco Porto, quem fica apaixonado por ela pelo fato de ela ser artista (tocar a flauta) e não pelo fato de ela ser uma cegonha que traz crianças ao mundo. Angélica encontra contextos sociais que dão outras opções para construir sua própria identidade e exercer um rol social que permite diversas formas de interatuar com os outros.

Angélica consegue usar sua própria historia como um jeito de mudar a sua identidade e a realidade social através da arte. Na criação de uma obra de teatro, escrevendo e pondo em cena a historia da sua vida, Angélica encontrar amizade, amor e uma maneira de expressar o errado que ela considera o rol tradicional da cegonha baseado num engano.

A arte e apresentada como um agente de transformação tão poderoso que permite que Angélica comece a mudar o próprio contexto social da sua família. Isto é evidente quando o irmão da Angélica vai assistir a obra de teatro e acaba concordando com a visão dela e questionando a legitimidade do engano para obter uma posição social privilegiada.

No livro Angélica o assunto da construção da identidade e a modificação do contexto social pela interação com os outros é abordado como um conflito dinâmico que tem um grande poder transformador. O conflito pode se manifestar tanto para a negação ou a exclusão, no caso do rechaço do Porto do fato de ser um porco e a decisão de Angélica de desnascer, quanto para a criação e realização, no caso do Porco se aceitar e conseguir a aceitação dos outros e de Angélica se repensar como diferente da sua família e com a capacidade de se expressar e modificar o seu entorno social. Adicionalmente, a arte é apresentada como uma atividade social fundamental para a mudança dos indivíduos da sociedade e da cultura ao ponto de ser o veiculo de transformação da Angélica e o Porto para resolver os seus conflitos com se mesmos e como o seu cenário social.

 

Post Escrito por Nancy Fajardo 

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3 de agosto de 2017 · 15:16

Encontro 7-2017 – Clube do Livro Lygia Bojunga – ANGÉLICA

Arte: Lucas Prisco

No dia 25 de Abril de 2017 às 19h, reuniram-se no Auditório da Biblioteca Pública de Santa Catarina os participantes do Clube do Livro Lygia Bojunga para socializar a leitura da obra ANGÉLICA.

Participantes Presentes:

Evandro Jair Duarte – Coordenador do Clube do Livro Lygia Bojunga

  1. Ana Lúcia Kretzer Barotto
  2. André Lisbôa da Silva
  3. Cristina Hilgert Queiroz
  4. Daiane Alves João (Morghana)
  5. Juciléa Santos
  6. Maiara Corrêa
  7. Marli Emmerick Ferreira
  8. Nancy Enelia Fajardo Urazan
  9. Patrícia Núbia Duarte
  10. Príncia Béli (Coordenadora do Encontro)

 

Foto: site – http://casalygiabojunga.com.br/pt/obras.html

Texto de Abertura: Evandro Jair Duarte

 

Na sequência segue o texto de uma das participantes do Clube do Livro Lygia Bojunga.

Palavras da Escritora e Mediadora de Leitura Príncia Béli, com as impressões da Poeta Marli Emmerick, ambas construíram este registro:

 

Angélica.

Quando você não quer mais ser o que é  – dá pra mudar de nome, da cor do pelo?

Quando você não se conforma com o jeito que sua família vive – dá pra mudar a família? dá pra você mudar de família?

Quando você não arranja um trabalho – dá pra inventar um?

E, se você precisa vender um pedaço do seu corpo pra sobreviver – dá para ficar de bom humor?

Se você ficar velho e sozinho dá pra dar a volta por cima?

Estes sãos os questionamentos que Angélica de Lygia Bojunga trouxe ao Circulo de Leitura no mês de Maio.

Porto, o porco; Angélica,a cegonha; Canarinho, o elefante e outros personagens que falam com os seres humanos pipocam entre os encontros deles culminando na peça de teatro onde Angélica retrata seu conflito com a família sobre como se nasce, ou, “desnasce”.

Em paralelo a trama principal está o comportamento em grupo citado quando os macacos aparecem cirurgicamente ao longo da leitura para completo deboche de assuntos tão existenciais. Notamos, os leitores do Circulo, que a autora promove uma reflexão atual e universal. São assuntos permanentes e permeados pelo cotidiano humano. Ainda assim fica o ponto de interrogação sobre para quem e para qual idade ela quer revelar a forma de nascer e de conviver com as diferentes opiniões.

Como facilitadora e propondo o formato de oficina pude perceber o contexto no qual Lygia expressa suas inquietações ao trazer como pano de fundo  sua inteligencia constatada nas entrelinhas do texto; considerado para leitura do público infantil. Por isso, compreender o tempo (1975), a regionalidade brasileira e em especifico no Rio de Janeiro, a experiência da autora ser atriz de rádio e pelo fato dela e o marido fundarem a TOCA (escola rural) dá a nuance de sua escrita: a de bichos falantes interagindo com humanos em cenário ora urbano, ora em ambiente rural.

Por essas razões tem-se a narrativa diretamente ao leitor, a representação de sentimentos, um realismo mágico com contos fantásticos pontuando uma escrita com assuntos sérios de forma leve beirando ao tom de humor com algumas situações satíricas.

Quando o enredo trás Napoleão Gonçalves, um sapo viúvo que cuida de sete sapinhos, filhos seus com Mimi-das-Perucas, vitimada pela vaidade exagerada demonstrando a construção social de como a fêmea deve se apresentar bela e cuidada ainda que lhe custe a vida; ou a tônica do casal de crocodilos – Jota e Jandira, que viviam em constante atrito, gerando crises de espirros nela diante do machismo de Jota.

Os espaços sociais apresentados ao longo da historia também complementam a ideia de interação entre as realidades no qual o ser humano está inserido, tal qual os animais: a escola que inibe a personalidade de Porto; a agencia de emprego que recusa Canarinho, a principio, porque tem rugas; Napoleão Gonçalves que faz o eterno movimento de insatisfação ao trabalhar para arcar seu papel de provedor; o salão que faz a sapa Mimi das Perucas uma escrava da beleza e naturalmente do consumo. Em contra ponto a ideia de liberdade é vinculada à natureza na época em que Porto vivia num tronco de árvore,  bem como no mar sobrevoado por Angélica.

Outrossim, a narrativa lúdica promove o tom das possibilidades quando Porto presenteia Angelica com um bilhete-ideia apaziguando a angustia da ave sobre a mentira institucionalizada- “a de que Cegonhas dão a luz”. O conflito puramente interno para Angélica é a de que sua família insiste em manter tal ideia. Para a parentela afinal de contas qual o problema das pessoas pensarem assim e elas levarem a fama de benfazejas?

Os demais personagens se reúnem com suas idiossincrasias tendo em comum o fato de estarem desempregados. A esta altura da historia o coleguismo, o trabalho coletivo, a liberação catártica propiciada pelo teatro demonstra a superação dos problemas de forma individual, mas não solitária. O que proporciona um sentido à vida e na satisfação pessoal. Por exemplo, o momento em que Porto deixa de negar que é um porco permitindo que o nó do rabinho se desentorte liberando-o de seus medos; ou, quando a mulher de J passa a exigir que a chamem de Jandira (a crocodila que tem nome), pois apesar do machismo do esposo mau humorado por ter que vender pedaços de seu rabo, ela também tem voz e vez!

Uma forma brilhante que autora encontra no tocante de assuntos tabus trazendo a sua perspectiva reflexiva sobre sexismo e tantas outras estruturas comportamentais.

Assim, a leitura passa impressões existencialistas e que não promove lição de moral, mas expõe os conflitos sociais e individuais por meio de uma trupe de bichos que falam e se relacionam com os humanos. Cabe ressaltar que para alguns dos leitores esta mescla do fantástico com o mundo “real” é incomoda. Para outros, uma magia acontece a cada nova ação fantástica dos personagens.

O Circulo de leitura Lygia Bojunga ocorre uma vez por mês na Biblioteca Estadual de SC que propõe a leitura em ordem cronológica das obras. A facilitação de Angélica ocorreu por intermédio da escritora Príncia Béli, sob a coordenação de Evandro Jair Duarte. As impressões da participante Marli Emmerick também contribuíram para a construção deste registro.

Saudações,

Princia Béli

Terapeuta Integrativa

________________

55 (48) 9648-8919

(tim/ whats app)

skype:Atman Social

 

FOTOS DO ENCONTRO

 

Post Escrito por Evandro Jair Duarte, Príncia Béli Teixeira e Marli Emmerick.

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Divulgação 8-2017 – Clube do Livro Lygia Bojunga – ANGÉLICA

O próximo livro a ser lido e discutido no Clube de Leitura é o ANGÉLICA.

Venha com a leitura feita e compartilhe suas impressões acerca da obra!

Fonte: http://casalygiabojunga.com.br/pt/obras.html

Data: 25-04-2017 (terça-feira)

Local: Auditório da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina

Horário: 19h – 21h

Contato com Evandro Jair Duarte: dujaev@gmail.com

 

Post escrito por Evandro Jair Duarte

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