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Clube do Livro – A Boca (Bolsa) de Leão (Amarela) – (Texto de Nancy Fajardo – enviado por e-mail)

A Boca (Bolsa) de Leão (Amarela)

No livro a Bolsa Amarela, Lygia Bojunga expõe três assuntos muito interessantes para quem é ou já foi criança, e para quem está interessado na escrita. Raquel, protagonista da historia tem três vontades: a primeira a de ser maior, a segunda a de ser menino e terceira a de escrever. As três são problemas para ela, por causa do seu entorno social, nem na família da Raquel, nem na sua escola é compreendido o conflito que as três vontades têm gerado na vida da menina.

A família de Raquel está composta só por adultos. Tanto os pais quanto os irmãos estão envolvidos completamente no mundo dos adultos. Eles esqueceram o mundo infantil e não compreendem ou dão importância aos problemas e preocupações de Raquel, ou à solidão que pode experimentar uma criança, quando o mundo infantil é desvalorizado e não consegue orientação para enfrentar o contexto de valores e preconceitos no qual esta imersa.

A primeira das vontades, a de ser maior, aponta às memórias da infância, à condição de dependência da criança frente ao adulto cuidador (pais, família, professores, etc.) e a desigualdade inerente nesse relacionamento. Quando estas condições de desigualdade são fortalecidas pelas práticas sociais e culturais, fazem com que o mundo infantil e os conflitos próprios sejam ignorados e menosprezados. Tão natural é a tendência a desvalorizar o mundo infantil na nossa sociedade, que quando um adulto mostra uma reação emocional exagerada ou dá importância demais a um assunto que os outros encontram superficial, é chamado de infantil.

Essa abordagem tradicional do mundo da criança é apresentada no livro por intermédio do relacionamento da Raquel e sua família, especialmente na cena em que todos vão para o almoço na casa da tia Brunilda, que é rica, e por isso a família da Raquel tenta de todo jeito agradá-la. No almoço, Raquel é pressionada para comer o que não gosta, para cantar, para dançar, para contar histórias e para abrir a bolsa amarela. Nessa situação, evidencia-se como as opiniões, exigências e necessidades do adulto são consideradas muito mais importantes do que as da criança, ao ponto de que seja desejável que a criança se comporte como um fantoche, que haja em função da vontade do adulto.

A vontade de Raquel, de ser maior, espelha a necessidade de reconhecimento da criança dentro do seu entorno social, para ela, esse reconhecimento é impossível, e para obtê-lo, a única possibilidade é ser maior.  A percepção da Raquel sobre o rol da criança muda com a amizade dela e a família da casa de consertos, ali ela enxerga como uma criança (Lorelai) tem uma posição de poder (reconhecimento e respeito a sua individualidade) sem rejeitar ou sair do seu lugar de criança. Na casa dos consertos, cada um é diferente, mas todas as diferencias são reconhecidas e respeitadas, ao ponto que Lorelai pergunta para Raquel porque é que criança e adulto não podem achar igual.

A segunda vontade, a de ser menino, é apresentada na história, como a vontade de se rebelar contra o poder exercido pela sociedade, no que diz respeito às regras de gênero. A pressão das regras pré-estabelecidas e diferenciadas para cada gênero é uma constante na vida das mulheres (dos homens também) e uma forma de encará-la, é o desejo de ser homem. Na história, Raquel quer ser menino porque menina não pode nada das coisas que ela gosta, como soltar pipa, jogar bola, ser o chefe da família, ou, quando adulta, ter independência e tomar as próprias decisões, etc. Essa vontade, de ser menino, é uma vontade que muitas mulheres compartilham em alguns momentos da vida, sobre tudo quando os preconceitos sobre nossa condição de mulher restringem a nossa liberdade de agir.

A vontade de ser menino é resolvida de um jeito muito bonito e engenhoso no livro, quando Raquel conhece a família da casa dos consertos, especialmente, quando vira amiga de Lorelai e sua mãe, essa amizade amplia a gama de possibilidades da vida de Raquel, lhe mostrando que as pessoas podem fazer o que elas gostam e querem, independentemente do seu gênero.  Lorelai e sua mãe mostram para a Raquel que, conseguir o que ela quer depende em grande medida dela mesma e exemplificam como o contexto social pode facilitar a execução das vontades de um individuo, seja mulher ou homem, velho ou jovem.

A terceira vontade é apresentada na história de um jeito muito lúdico e profundo, a vontade de escrever, é uma força dentro da Raquel que precisa se manifestar na realidade de algum jeito, porque do contrário, entorpece a vida dela e sua relação com os outros. A vontade de escrever, é uma força criativa tão grande que, às vezes, se expressa, mesmo contra a vontade da Raquel. Essa vontade é expressa tanto na linguagem oral (nas histórias que Raquel conta para seus familiares e na escola) quanto na linguagem escrita (por meio dos contos e romances que ela inventa).

Raquel quer esconder as suas vontades de escrever, por causa de que sua família não entende os seus escritos, nem sua necessidade de escrever. Isso se mostra no começo do livro, quando a Raquel imagina um amigo, este que responde às suas cartas. O irmão dela lhe diz que não pode continuar com aquela fantasia. Outro momento, é quando ela escreve o romance do galo Rei, que quando encontrado pela sua família é objeto de deboche, fazendo a Raquel sentir que sua habilidade para escrever e sua imaginação sejam desvalorizadas.

A rejeição dos outros à obra do escritor, (neste caso da família da Raquel) é um conflito que as pessoas interessadas na escrita encaram em diversas oportunidades. A vontade de escrever e o exercício da mesma, nem sempre são compreendidos pelas pessoas ao redor do escritor (família, escola, trabalho, …) e, por causa dessa incompreensão, o escritor pode sentir-se isolado, fora do seu lugar. O escritor, também, encara essa solidão, enquanto artista, por causa de que o fato de escrever é uma ação individual, de reflexão sobre o mundo ou sobre si. Ação que é particular e envolve sensações e emoções, que podem ser compreensíveis pelos outros ou não. Os leitores são os receptores do ato de escrever, como observadores de um mundo interno (do escritor) exposto em palavras.

No livro, a solidão da Raquel, como escritora, é evidente desde o começo da história. O fato dela bolar um amigo para se escrever cartas, mostra que ela não tinha com quem compartilhar aquela vontade de escrever, não tinha um colega que se interessasse do mesmo jeito que ela pela escrita. Igualmente, a família da Raquel percebe a capacidade de escrever e imaginar dela como um problema que era importante esconder ou suprimir.

Quando a Raquel conseguiu ficar como a bolsa amarela, conseguiu um lugar no mundo onde poderia colocar suas vontades. Um lugar próprio, no qual suas vontades e suas histórias puderam se expressar na realidade. Desde a aparição da bolsa amarela, Raquel começou a encontrar companhia, primeiro de objetos e animais (o feche – zíper, o guarda-chuva, o alfinete e o galo Alfonso – o Terrível), e depois de pessoas (a família da casa dos consertos). Depois de ganhar a bolsa amarela, Raquel descobriu que existem pessoas (animais e objetos também) semelhantes a ela; outros que conseguem entender sua visão do mundo, e que lhe mostram um mundo com mais opções, com possibilidades de enxergar suas vontades como algo útil e valioso, para ela e para os outros; como um talento que faz ela única, e que pode beneficiar e agradar os que a rodeiam.

Do mesmo jeito que em “A Bolsa Amarela”, a Oficina Literária Boca de Leão tem se configurado como um lugar no qual se pode colocar em prática a vontade de escrever. Igual a uma bolsa amarela gigante, onde muitas pessoas interessadas na escrita podem manifestar na realidade todas aquelas histórias. Ali, personagens e criações que têm engordado as suas vontades de escrever, ao ponto de encher a bolsa. Talvez não tivessem um lugar próprio no qual fossem compreendidas ou estimuladas. Ou tivessem.

A Oficina Literária Boca de Leão é como uma bolsa amarela gigante, em que se tem constituído como um ponto de encontro para pessoas de múltiplos contextos sociais e bagagens culturais que se tornam semelhantes pelo seu interesse na escrita.  Tem se estabelecido como um espaço no qual a palavra, a criatividade, a escrita e a literatura são exercidas, entendidas e aprendidas através do compartilhar de visões do mundo e experiências de vida.

A Oficina Literária Boca de Leão é como uma bolsa amarela gigante, possibilita a criação e compreensão do ato (arte) de escrever não somente como uma tarefa individual e isolada, que parte da experiência subjetiva de cada escritor; mas como uma função social, como uma oportunidade de aprendizado, enriquecimento e criação coletiva e do coletivo.

 

Texto escrito por Nancy Fajardo (enviado por e-mail)

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Divulgação 10-2017 – Clube do Livro Lygia Bojunga – A BOLSA AMARELA

Arte: Lucas Prisco

 

CONVITE

A Oficina Literária Boca de Leão, Atividade Permanente da Biblioteca Pública de Santa Catarina, convida a todos os interessados para participar do Encontro do Clube do Livro Lygia Bojunga no dia 30 de maio de 2017 às 19h no Auditório da Biblioteca Pública.

Rua Tenente Silveira, n. 343 – Centro – Florianópolis (SC)

Contato: dujaev@gmail.com

Leitura da Obra: A BOLSA AMARELA

Fonte: site casalygiabojunga.

 

Post escrito por Evandro Jair Duarte

 

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